O direito de resposta, em bom português.

Eu sei que eu disse que estava com bloqueio criativo. De certa forma, ainda estou. Mas algumas coisas despertam a gente da inércia, aí dá vontade de escrever alguma coisa. Na realidade, eu nem escreveria, caso meu domínio do espanhol fosse maior do que é no momento. Mas como meu espanhol ainda não passa muito do esforçado “¿hola, qué tal?”, resolvi desabafar em bom português.

Veja bem, estou fazendo aulas de espanhol durante essas férias. E, para variar, eu sou provavelmente a figura mais estranha dentro da classe. Não que eu não esteja acostumada com o fato, pois quando se lida com moda, isso acontece e muito. Quando contei em que área me formei, foi bem sonoro: “Aaaah… faz sentido, bem que eu percebi você toda diferente…” Anyway, ser igual realmente já não me atrai há tempos. E claro que somos todos figuras interessantes e diferentes na classe, mas visualmente falando… talvez meus cabelos pintados, minhas leggins e vestidos coloridos me denunciem como pouco ortodoxa. Imagine se eu já tivesse feito as tattoos que tanto gostaria!

Bom, diferenças à parte, essas últimas semanas se transformaram para mim em uma experiência fabulosa, não só pelo conhecimento da língua, mas pelas pessoas interessantes que pude conhecer. Muita gente divertida, inteligente, determinada, hilária, amável, etc, etc. A própria professora, uma paraguaya adorável, é merecedora de boa parte dos elogios.

Geralmente, eu gosto de pessoas. As pessoas em geral. O ser humano, que seja. Não sou criatura das mais sociáveis, mas também não faço tão feio no quesito. E ser relacionável pode ser delicioso, mas ninguém nunca é fácil. Principalmente quando se é uma figurinha… “diferente”, eu diria. Mesmo que todos fôssemos iguais, ainda assim seria sôfrego boa parte das vezes, pois ser humano que se preze sempre arranja uma desculpa pra uma briguinha, uma discussão, ou qualquer coisa que possa resultar em uma tertúlia. Na minha classe de espanhol não poderia ser diferente.

Num jogo proposto pela professora para fins didáticos (obviamente), sorteamos profissões em espanhol para cada um dos alunos. A idéia era: estamos dentro de um balão e alguém precisa pular, pois está muito pesado. Baseado na profissão da pessoa, vamos ter que escolher quem pula. E nós teríamos que gastar todo o nosso latim, quer dizer, o nosso espanhol, para convencer os outros de como nossa presença no balão era necessária.

Minha profissão no sorteio foi Massagista. Nada contra os massagistas (aliás, nada contra e tudo a favor, pois eu amo massagem!), mas eu sabia que não ia dar outra: eu ia ter que pular. Qual foi a minha surpresa, quando no outro grupo (eram dois balões) uma outra aluna sorteou a profissão de Modista. E sabe lá Deus o que eles realmente querem dizer por modista hoje em dia, já que para a maioria das pessoas não passamos de desenhistas e costureiros. Triste, porém real. Mas o fato é que havia uma modista no balão. E ela também sabia que iria pular, coitada.

Bom, eu nem precisei suar muito nas minhas justificativas para ficar no balão. Tinha uma vidente no balão. E até ela preveu sua queda. Acabei ficando no balão. Mas no outro balão, a modista não se salvou. E as justificativas, apesar de concretas, foram cruéis. “Moda é coisa de patricinha”. “Moda é coisa de gente superficial”. Coisas desse tipo não tardaram em ressoar pela sala. E eu, em defesa da classe, tentei explicar com o espanhol mais tosco da face da terra que as coisas não eram bem assim, que moda era uma coisa não somente importante, como é uma das faces da Arte. E eu voltava a escutar comentários compreensivelmente ignorantes. Aí não rolou: la sangre española falou mais alto nas minhas veias e comecei a falar em português, indignada com o fato de pessoas que se vestem todos os dias para ir trabalhar e pessoas que dizem adorar e comprar sapatos compulsivamente soltarem frases como “moda não é importante” ou “moda é coisa para patricinha fazer”. Mas como as conversas em português nunca duram na sala, logo eu deixei de lado a tertúlia e me concentrei novamente nos pronomes possessivos.

A unanimidade é burra. Certo, isso todos sabemos. Nem pretendo que todos entendam as coisas da mesma forma que eu. E eu entendo que a minha área esteja realmente cheia de pessoas pouco preocupadas em divulgar o sentido artístico da moda e da estética. A preocupação é mesmo a de ganhar dinheiro e escravizar a partir de tendências. Mas isso é tão pequeno, se olharmos para a imensidão da indústria de moda, os milhões de empregos e pessoas que fazem chegar até você o que quer que seja que você esteja vestindo agora. E nem vou mencionar as grandes e geniosas mentes artistas do século passado, de Chanel, Dior a Balenciaga e outros mais, que revolucionaram o estilo de vida da sociedade ocidental, trazendo a funcionalidade e a estética necessária à época.

É uma pena não termos memória. Mas tudo bem, tenho que ser compreensiva. Desabafei, agora é bola pra frente. De volta aos estudos, muchachos.

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