As memórias de uma noite

“Memoire de la Nuit” é o penúltimo espetáculo da Mostra Internacional de Teatro em Brasília. E, arrisco dizer, o mais instigante de todos. O espetáculo com o título francês é criação do suíço Phillip Böe, com texto em inglês e inspirado nos quadros do belga René Magritte. Eu sei, parece uma bagunça cultural. E é mesmo. O que sempre torna as coisas mais interessantes.

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Böe, um carequinha alto cheio de expressividade.

Phillip Böe é um ilusionista fantástico. E ele quebra as barreiras entre teatro e ilusionismo, com seus movimentos vezes bruscos, vezes sutis, e sempre inesperados. Em “Memoire de la Nuit”, Phillipe encara o palco sozinho, contracenando com objetos que se movimentam surrealisticamente, criando e recriando cenas e referências aos quadros de René Magritte. Böe é um detetive que investiga um assassinato. Ao recriar a cena do crime, tentando entender o funcionamento da mente de um assassino, o detetive é levado aos recônditos de sua própria mente e memórias. O ilusionismo e os elementos surreais (inspirado também no interessante e bizarro David Lynch) fazem o espectador tanto se virar e revirar na cadeira, agoniado, quanto ficar estático, compenetrado, absorto. Loucura pura. E, por isso mesmo, uma delícia!

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O chapéu coco, o céu azul com nuvens, a pomba e o tecido branco que envolve o rosto: elementos recorrentes de Magritte que contracenam com Böe em “Memoire de la Nuit”.

O espetáculo é mais interessante ainda quando se conhece bem o trabalho de Magritte. Mas, com o pouquinho que eu conhecia do pintor surrealista, já foi de encher os olhos. Imagino o estrago que fez na cabeça dos aficcionados por arte sentados na fileira atrás de mim! Phillip Böe é muito competente, tanto como ator quanto como ilusionista. A trama se desenrola em cima de pouco texto, mas a mímica é uma lingüagem muito mais forte do que eu esperava. Certamente guardarei loucas memórias dessa noite nos recônditos da minha mente.

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